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in "REVISTA FAROL" - Vol 2 # 15 Mai/92 Página 11
UNIDADE NO SEIO DA COMUNIDADE
Falar de unidade no seio da nossa comunidade exige um estudo mais aprofundado e mais
extenso do que esta simples opinião aqui por mim apresentada. No entanto tentarei
lançar algumas idéias e sementes que poderão germinar e trazer um pouco de luz a esta
controvérsia de fundamental importância para a nossa comunidade.
A minha exposição tem como pano de fundo o antagonismo existente entre gerações de
Caboverdeanos nos Estados Unidos da América.
Falando específicamente de gerações de Caboverdeanos sediados na Nova Inglaterra,
porventura já tiveram a oportunidade de entrar num destes chamados
"Capeverdean-American Clubs" pertencentes ou administrados por "Caboverdeanos-Americanos",
ou seja, "caboverdeanos" nascidos aqui na terra do Tio Sam?
Porventura já tiveram a sensação de se sentirem nesses lugares como um "peixe fora
d'água", ainda que tratados com muito respeito e carinho? De sentirem que os padrões
culturais professados nestes clubes não são necessáriamente os "seus" padrões
culturais? Já constactaram que as datas festejadas pelos nossos irmãos
"Caboverdeanos-Americanos" nem sempre traduzem os nossos anseios de patriotas
Caboverdeanos que somos? Que a cultura encontrada nestes clubes possui ingredientes
que muito pouco têm a ver com a cultura que trouxemos de Cabo Verde? Que existe mais
diversidade do que afinidade entre gerações de Caboverdeanos aqui nos Estados Unidos?
Ora, isso acontece e continuará acontecendo, se ficarms de mãos amarradas, esperando
que "algo" aconteça e mude o rumo das coisas.
Mas, analizemos também o outro lado da moeda. Por acaso se lembram de terem encontrado
em "suas" festas elementos rotulados de "Capeverdean-Americans"? Ou até, se lembraram
de convidá-los e assim trazê-los para o seio do que chamamos de "nossa" comunidade?
Será que não se sentiriam da mesma forma, como "peixes fora d'água"?
Ora, parece que as "queixas" ou constatações são recíprocas.
O que fazer para reverter este estado de coisas? Bem, existem medidas de curto e longo
prazo que certamente ajudarão a encurtar o caminho entre estes dois blocos. Uma vez
eu já tinha escrito num artigo intitulado "A Nossa Independência" para a nossa Revista
Farol (Agosto 1991), do qual apresento os seguintes extratos. Eu dizia então: "Já
pensaram que os líderes da primeira geração de imigrantes (os "Caboverdeanos-Americanos)
podiam ser convidados para participarem da Comissão Organizadora da Festa (de
Independência de Cabo Verde) no pátio do City Hall em Boston? Eu diria, não sómente
para esta determinada festa, mas também para outras de caracter nacionalista". Ainda
no mesmo artigo pode-se ler: "Os órgãos de comunicação social podiam e deviam divulgar
as festas tradicionais dos "Caboverdeanos-Americanos". Também, aqui acrescento, o
recíproco é verdadeiro. Os órgãos de comunicação social pertencentes aos
"Caboverdeanos-Americanos" podiam e deviam divulgar as nossas festas e as nossas
tradições.
Com um certo agrado verifico que tem havido indícios, de ambas as partes, para uma
cooperação mais eficáz e persistente. No entanto, ainda são apenas indícios de uma
vontade velada por parte de alguns líderes desses dois blocos em questão. É preciso
mais vigor e mais empenho para que algo de bom possa acontecer.
Também no mesmo artigo eu já havia aventado a possibilidade de uma estação
"Caboverdeana" de rádio, onde todos os nossos "radialistas" pudessem transmitir a sua
mensagem, cada um mantendo a sua individualidade, servindo esta hipotética estação de
meio de concentração de ouvidos caboverdeanos.
O mesmo poderia ser dito no que diz respeito à televisão, onde também podemos
constactar tendências e recursos de ordem diversa. Da mesma forma, todos poderiam se
beneficiar de uma possivel união. É claro, dificuldades existem, temos amadores e
profissionais, e por isso, interesses por vezes conflitantes. Contudo, as despesas
seriam menores, os programas não se repeteriam, e, através de uma competição sadia,
mantendo cada um a sua individualidade, muita coisa boa podia acontecer.
É preciso lembrar aos interessados por esta matéria de que a eloquência do ditado "a
união faz a força" precisa ser captada e usada em nosso benefício. E aqui me refiro
a uma estação de rádio e televisão que pudesse albergar todas as tendências e gerações,
uma estação de rádio e televisão que tivesse o papel catalizador no seio da nossa
comunidade. Sómente conhecendo o solo em que pisamos, podemos caminhar com mais
firmeza, podemos fazer ouvir a nossa vontade. Penso que este seja o caminho a
percorrer.
By Vuca Pinheiro
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