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in "REVISTA FAROL" - Vol 2 # 9 Abr/91 Página 5
PAZ, AMOR E UNIÃO
No céu uma estrela, no pensamento um ideal, no ar uma pergunta "porque não ...?".
Assim nascem as grandes ideias, assim nascem os grandes projectos. E, no campo musical,
onde muito se tem produzido nos últimos quinze anos, faltava aquele trabalho
consagrador, aquele trabalho que consegue demonstrar toda a capacidade criativa do
Caboverdeano, esse amante do seu torrão natal, aonde quer que se encontre.
Com a ideia delineada, os ideais mais definidos, faltava dar forma definitiva ao
projecto. Assim nasceu a idéia, que prosperou, amadureceu e, para alegria de nós todos,
materializou-se em um album musical de que se falará por longos e longos anos,
promovendo assim "A Cultura Caboverdeana em Expansão". E, para a direcção musical, a
escolha veio a premiar aquele que, através dos anos, vem ditando as regras do jogo no
campo musical, agradando a Gregos e a Troianos.
Assim, para o comando das operações um jovem com muita experiencia de estúdio fazia
maravilhas a partir do nada. Os acordes eram executados com perfeição e muita harmonia.
A orientação era precisa. Cheguei a ver umas quinze a vinte pessoas serem dirigidas
num pequeno ensaio de não mais de dez minutos, e fazerem um trabalho excepcional,
atendendo ao facto de muitos deles não terem tido qualquer contacto anterior com o
ambiente que se vive em um estúdio de gravação, ou, em certos casos, de nunca terem
cantado na vida deles. O nome dele? Quem não o sabe? Paulino Vieira.
Para a galeria de artistas, não era justo promover um único artista. Assim, chegou-se
à conclusão de que se tentaria angariar nomes de relevo, sem esquecer aqueles que, de
uma forma ou de outra, têm emprestado o seu valioso contributo para o engrandecimento
da nossa música. Esta decisão não poderia ser mais feliz. No mesmo disco encontramos
nomes que, de outra forma, jamais pensariam em coordenar a sua capacidade criativa para
um trabalho conjunto.
No estúdio, a pacência e o tacto do maestro Paulino eram postos à prova a cada minuto.
Muitos cantores de primeira água eram mesclados com cantores de tarimba internacional,
porque o importante era o espírito de irmandade e solidariedade que sempre norteou este
projecto. As horas passavam rápidamente. Já eram cinco horas da manhã (de muitas
manhãs) e o cansaço vencia os presentes.
Humildemente, em um canto da sala, ou atrás das cortinas podia-se ver o semblante de
alguns responsáveis por este maravilhoso projecto, que merece o aplauso de todos.
Na sala ao lado, enquanto se ouvia ao fundo os já conhecidos tic-tacs de uma edição
sonora, dois grandes nomes da nossa música, Tazinho e Mendonça, descontraíam os nervos,
dedilhando o violão com maestria, brindando os presentes com bonitas mornas do nosso
folclore caboverdeano.
Não faltaram, nas horas de descanço, as anedotas ou os contos que enriquecem o nosso
folclore, ou o "matar saudades" entre artistas que vivem no estrangeiro e artistas locais. O ambiente era
acolhedor e reconfortante.
Não pudemos esconder a curiosidade de conhecer mais detalhes que envolveram a
hibernação, o nascimento, o cultivo e a finalização do projecto. Crizolita Pontes
Alves, presidente da organização "HELP-CV" que foi a responsável pela produção do
disco, nos fala sobre esses detalhes na segunda parte deste artigo.
A escolha do repertório espelha toda a expressão cultural Caboverdeana, nas suas
diversas facetas. Na selecção de "mornas" tentou-se homenagear todos os compositores,
ou pelo menos a maioria deles, que contribuiram para enaltecer o ritmo Caboberdeano
por excelência, ou a mais original de todas, que é a nossa "morna". "Ti Jon Poca",
esse ritmo de "samba" muito cultivado em Cabo Verde, demonstra todo o apego do
Caboverdeano à terra amada. E porque não apresentar o nosso Cabo Verde aos
estrangeiros numa lingua universalmente falada no mundo inteiro? "There everything is
nice, everything is sweet, it is so enjoyable". Nada poderia ser mais apropriado para
esse fim do que "Prece de um fidjo" de Paulino Vieira. "Love, Peace and Unity", um
hino de apelo à Paz, que merece ser cantado por todos, representa o estrangeirismo que
existe em todo o Caboverdeano, esse poliglota que fácilmente se adapta à várias
culturas, sem contudo esquecer a própria. "Funaná", esse ritmo quente que também não
poderia faltar à esta galeria de ritmos que o Caboverdeano cultiva com orgulho.
E assim, da aparelhagem que ornamentava o "control room" e do emaranhado de botões de
uma mesa de som, brotava um dos mais lindos trabalhos já realizados no campo musical
Caboverdeano. Não poderia haver melhor nome para um trabalho que exigiu de todos
abnegação, espírito de sacrifício, amor à terra, solidariedade e fervor por esse Cabo
Verde que todos nós amamos.
By Vuca Pinheiro
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