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in "REVISTA FAROL" - Vol 2 nº 10 Jun/91 Página 7
in "PORTUGUESE TIMES - Suplemento ERNESTINA" - Ano I nº 12 Jul/4/91

A EVOLUÇÃO DA MÚSICA CABOVERDEANA

Falar de "Evolução da Música Caboverdeana" implica necessáriamente ter em consideração a evolução político-social que teve lugar em Cabo Verde nestes últimos quinze ou dezasseis anos.

Dificilmente um desconhecedor de assuntos caboverdeanos conseguiria entender a transformação ou a evolução musical Caboverdeana, se ele não estiver informado das transformações político-sociais dos últimos anos em Cabo Verde.

A sociedade transfigurou-se, tornou-se mais aberta e propícia a debates outrora proibitivos; novos horizontes apareceram como que por encanto; novas responsabilidades se impuseram nos ombros do Caboverdeano, responsabilidades essas que envolveram, entre outras coisas, a reestruturação social, económica e política, que por si só dão a entender e conhecer o ambiente que se viveu em Cabo verde nos últimos anos. Como não podia deixar de ser, a música caboverdeana também sofreu o impacto.

Como veículo de comunicação que é, também a música teve que se adaptar a novos tempos e costumes, transportando no seu bojo uma nova mensagem que viria a modelar o seu futuro, dando-lhe uma nova roupagem.

Não raramente encontramos composições fervorosas onde a temática "liberdade" se torna o centro das atenções. Às vezes uma mistura de liberdade, política e um pouco de sensibilidade artística consegue nos proporcionar composições maravilhosas como "Doci Guerra" do jovem compositor Antero Simas.

O "Funaná", esse ritmo quente e gostoso, veio ajudar a brotar o sentimento popular Santiaguense, outrora quase que desaparecido, propiciando o aparecimento de talentos como o de Katchás e de conjuntos como "Bulimundo" e "Finason", que muito contribuiram para a expansão e internacionalização desse ritmo Santiaguense por excelência.

A "Coladeira", a mais visada de todas, sofreu mais do que os outros ritmos. Teve que, como um súbdito, sujeitar-se a ritmos oriundos da Martinica, Curaçau, Jamaica e tantos outros distantes lugares. No entanto, também tivemos defensores nas pessoas de Manel D'Novas, Pedro Rodrigues e outros que, sensibilizados com o que é nosso, nos brindaram com excelentes composições. Aqui cabe uma pequena pergunta. Será que esses países nos estão copiando também? Se não estiverem, alguma coisa está errada. Pensem nisso!

O tema dominante da parte lírica era o amor à terra. Esse, como se podia prever, continuou sendo tema central como na bonita composição "Mindelo Pequenino" de Manel D'Novas. A partir de uma certa altura, a preocupação pelo aspecto político tornou-se notória, o que é uma inovação em termos musicais Caboverdeanos. No aspecto social, era mais do que óbvio de que a nossa música tentaria trazer à tona toda a conquista ou frustação experimentada pelo nosso povo, durante esses tempos incertos.

O amor, é claro, continuou sendo o amor, com o seu lugar inconfundível no coração do Caboverdeano. Composições lindíssimas apareceram e continuaram inundando o nosso folclore, o que é muito bom para as nossas aspirações musicais.

Porém, por vezes, as composições se tornaram mais difíceis de serem tragadas pelo Zé Povinho, aonde se chega à conclusão de que a elaboração musical, ou a música de laboratório, tem contínuamente tomado o lugar da espontaneidade e da inspiração poética, sem falar na cópia ou na imitação, fenómenos totalmente desprezíveis. Infelizmente, neste aspecto, a preocupação com o comercial vem matando a inspiração, dando lugar, por vezes, a composições sem expressão, o que em nada dignifica a música de Cabo Verde.

Redescobriram-se os génios musicais de Eugénio Tavares, Rodrigo Peres, Juloca, e tantos outros, que muito contribuiram para o engrandecimento do nosso folclore. Porém, aqui eu não podia deixar de lamentar a falta de consciência e profissionalismo de alguns cantores que insistem em cantar certas composições (letra e música) "à maneira deles", desrespeitando portanto a vontade e intenção do compositor "original". A isto talvez se deve ao facto da inexistência de uma sólida cultura musical de base, quando os nossos jovens poderiam ser amparados e orientados, incutindo-lhes o sentido de profissionalismo, com extraordinários benefícios para a nossa música.

E quanto a arranjos musicais? Mudou alguma coisa? Não é preciso uma lupa para se chegar à conclusão de que muita coisa mudou.

Enquanto que antigamente havia o solo (vóz ou o instrumento em sí), um ou dois instrumentos fazendo o ritmo e muito raramente a bateria, podemos notar hoje a preocupação com o arranjo musical, aonde a bateria toma um lugar de destaque, à semelhança do que acontece na música considerada moderna.

A instrumentação rítmica já não mais executa sómente o acorde central, com a finalidade exclusiva de fazer o ritmo. Pelo contrário, a elaboração dos contra-solos, a sequência de acordes e os acordes dissonantes estão cada vêz mais frequentes e presentes na nossa música, como também acontece na música de raíz afro-francesa (contra-solo) e brasileira (dissonante).

De lamentar, o translado de ritmos estrangeiros (incluindo arranjos) para dentro da música caboverdeana, o que denota uma falta de consideração para com o que é nosso, aliás, dando crédito ao ditado popular "Santos de casa não fazem milagres". Acredito piamente que temos uma música bem bonita e rica em harmonia. O que é necessário fazer é, apenas, trabalhá-la com mais carinho e mais respeito. Temos o mais importante que é o elemento humano, o resto consegue-se com amor e trabalho.

A preocupação com o arranjo de violinos é gritante, havendo até gente que ouve uma determinada música e consegue reconhecer de imediato que o arranjo de violinos é ou não de Paulino Vieira.

O órgão, que antigamente servia apenas para proporcionar fundo musical, hoje é substituido pelo sintetizador, aonde a preocupação do som certo para o momento certo é discutido à base de nomes tão conhecidos como YAMAHA DX7, KORK M1, ROLALD D70, ENSONIC, D110, PROTHEUS, e tantos outros.

Os metais, cada vêz mais usados, misturam-se com os sons do "keyboard" para proporcionarem mais ritmo e mais apoio à vóz. E, por falar em vóz, alguma coisa de novo vem acontecendo últimamente neste campo. Já se nota a preocupação pela segunda voz e pela terceira voz, dando assim um outro tom ao arranjo vocal. No entanto, ainda há muito por explorar neste campo.

E os efeitos musicais? Se compararmos as gravações de há quinze anos atrás com as de hoje, denotamos que hoje a música é mais aberta no espaço e mais volumosa no conteúdo. Tudo isso se deve ao constante evoluir do aspecto técnico dos equipamentos e instrumentos musicais e a uma quantidade sem fim de "boxes" de efeitos que conseguem emprestar um outro realce à música.

Bem, muito mais se poderia dizer sobre este assunto que se deduz vasto e controverso, mas iria para além do escopo deste artigo.

Para finalizar, valeu a pena toda essa transformação? Será que os aspectos positivos conseguiram sobrepor-se aos aspectos negativos?

Sim, "tudo vale a pena, se a alma não é pequena", como diria Fernando Pessoa. E a alma Caboverdeana tem tudo para continuar prosperando. Que assim seja.


By Vuca Pinheiro
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