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in "REVISTA FAROL" - Vol 2 # 11 Ago/91 Página 7

A NOSSA INDEPENDÊNCIA

Todos os anos o expediente é o mesmo: uma festa aqui, outra festa alí, muitas camisola e dísticos vendidos. o indispensável desfile de artistas no Pátio do City Hall em Boston, etc, etc.

Enquanto isso, e sem que nos apercebamos de tal, vamos encobrindo ou camuflando problemas graves dentro da nossa Comunidade.

Assim, sem mais milongas, voltemos a nossa atenção para esses mesmos problemas que nos vêem afligindo ontem e hoje e que precisam ser solucionados com certa urgência.

Não acredito que seja novidade para ninguém a existência do que eu chamo de três Cabo Verdes dentro da nossa Comunidade.

O Cabo Verde da primeira geração de imigrantes, também conhecidos por Caboverdeanos-Americanos, tradicionalmente sediados em New Bedford, Cape Cod e Scituate; o Cabo Verde proveniente de segunda e terceira gerações de imigrantes, representado pelo grosso da nossa imigração e amplamente espalhado pelos vários quadrantes de New England; e um último Cabo Verde, fruto da nova e maciça emigração das nossas ilhas.

Cada um com a sua cultura, cada um com o seu "modus vivendi", cada um na "sua", como dizem os amigos Brasileiros.

E os programas de rádio que podiam e deviam estar interessados na solução deste imenso problema, preferem insistir em não se irmanarem, fazendo coisas por vezes repetitivas.

A televisão, esse meio de comunicação relativamente novo no seio da nossa Comunidade, se não acordar terá o mesmo destino dos programas de rádio.

A imprensa escrita, também perdida nesse labirinto de três pontos, se é que posso chamar isso de labirinto, não faz esforço nenhum para encurtar o caminho entre três pontos, e que principalmente esses três pontos comecem a se entenderem e a se darem as mãos.

Ora amigos, não sei se entendo a Independência de uma forma diferente da maioria, mas vejo-a na solução persistente e contínua dos problemas que nos afligem, para que não mais possamos ser dependentes de favores alheios para a consecução das nossas metas.

Precisamos entender de uma vez por todas que Cabo Verde é talvez o único país do mundo em que a população residente no estrangeiro é o dobro ou o triplo daquela residente no nosso país de orígem.

Levando isso em consideração, temos que aceitar que Cabo Verde é tudo isso que carregamos dentro de nós, com os seus problemas inerentes.

Nós, com a ajuda de Deus, podemos fazer o "nosso Cabo Verde" funcionar, podemos solucionar os nossos problemas, para que vivamos em liberdade e principalmente independentes.

Bem, apontar o erro e fácil, por vezes até ajuda, mas não é a solução. Por isso, aqui vão algumas sugestões e comentários:

Já pensaram que os líderes da primeira geração de imigrantes podiam ser convidados para participarem da comissão orgnizadora da festa no pátio do City Hall em Boston? Eu diria, não sómente para essa determinada festa, mas também para outras de caracter nacionalista. Também um representante de cada cidade que compõe a nossa comunidade de New England seria benvindo à essa comissão. Os órgãos de comunicação social podiam e deviam divulgar as festas tradicionais dos "Caboverdeanos-Americanos". Eles, por outro lado, já começaram por convidar o Deputado Caboverdeano, pelo Círculo das Américas, para as suas festas, o que já é um bom indício. Já pensaram que a festa da Independência de Cabo Verde, como o próprio nome diz, não é uma festa partidária? Já pensaram que certas associações, em vez de perderem tempo com discussões vagas de carácter político, que não levam a nada, podiam e deviam se preocupar em fazer algo de válido pelos seus associados? E uma estação "Caboverdeana" de Rádio e Televisão? Não seria uma boa idéia? E uma pesquisa (a sério) que pudesse trazer à tona as reais necessidades da Comunidade Caboverdeana?

Bem, isso foi apenas uma primeira vista de olhos no que vem acontecendo dentro da nossa Comunidade. Tenho certeza que, se fizermos um pouco de esforço, encontraremos muita coisa para ser implementada e melhorada.

Mas, não é nossa intenção nos concentrarmos apenas nos aspectos negativos. Os positivos, felizmente, aparecem de quando em vez, como que querendo dizer "estamos aqui, socorram-nos".

Assim, em 1990, no programa de rádio "Terra Longe" de Brockton, Manny Neves divulgava o seu "Capeverdean Hour", dando-nos a conhecer os tradicionalismos dos "Caboverdeanos- Americanos". Infelizmente, durou pouco. Também os programas televisivos "Kontakt" e "Cabo Video". uma vez ou outra, já fizeram cobertura de actividades sociais envolvendo esses mesmos "Caboverdeanos-Americanos". Existe também a vontade, por parte da imprensa escrita, de se unir e debater problemas comuns. Mas, convenhamos que o que se fêz até agora foi muito pouco em relação ao que se pode fazer.

Por tudo isso amigos:

Juntemos as nossas forças, festejemos a próxima Independência de Cabo Verde, com a satisfação do dever cumprido, com a casa arrumada, com paz de espírito, porque a Independência não é um processo estático. Ao contrário, ela é um processo dinâmico.

Conseguimos a nossa Independência no ano de 1975. Mas, conquistamo-la todos os anos, todos os meses, todos os dias, todos os minutos, todos os segundos.


By Vuca Pinheiro
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