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in "REVISTA FAROL" - Vol 2 # 8 Fev/91 Página 5
GUERRA? QUE GUERRA?
Há muito que o mundo se encontra dividido, ou melhor, retalhado segundo os interesses
económicos dos mais desenvolvidos. Há muito que este nosso planeta funciona como um
grande conglomerado financeiro onde cada corporação (leia- se "Nação") fabrica um
determinado bem que é consumido por outra corporação. Aos poucos uma determinada
corporação já não consegue mais produzir um bem de consumo sem depender de uma
terceira que lhe forneça uma determinada peça, tudo porque a mão-de-obra nessa terceira
corporação é mais barata, ou, em outros termos, a exploração do homem pelo homem é
maior.
O conceito de Nação, por mais nobre que este termo seja ou pretenda significar ou
transmitir, não mais tem o mesmo significado de outrora. Que pena!
Fala-se de guerra. O noticiário não diz outra coisa. Diz-se das consequencias
nefastas do evento. Enquanto isso a economia mundial se recupera de uma recessão
generalizada.
Inicia-se a guerra para que muitos possam ter assegurada a continuação do seu trabalho
em fábricas de artefactos militares ou derivados, que se proliferam pelo mundo afora.
Financia-se a guerra para que as grandes companhias possam ser beneficiadas na
"reconstrução" das cidades destruidas. Frases como "we will be the healers" ou então
"we are not against the Iraqui people, we are against the Iraqui Government" ou outras
do mesmo género são conferidas a diversas entidades internacionais envolvidas no
conflito. E isso sem contar com os vários movimentos de conglomerados financeiros de
diversos países no sentido de "reconstruir o que foi destruido", e tudo isso antes de
qualquer previsão sobre cessar fogo ou de paz mais duradoura.
Continua-se a guerra para que o preço do petróleo possa ser manobrado políticamente em
benefício de alguns e em prejuizo de outros, e para que se garantam meios de
subsistência para economias demasiado dependentes deste viscoso líquido.
Justifica-se que os bilhões de dólares gastos em armas ultra modernas e sofisticadas
(fazendo inveja a qualquer aficcionado de Nintendos e Ataris) foram bem empregados, e
assim abrir o caminho para nova corrida armamentista aonde o argumento central focaliza
a necessidade de se estar preparado para qualquer eventualidade desta natureza. Aliás
isso já foi proferido em alguns discursos de alguns políticos simpatizantes da questão
armamentista.
Enquanto isso, é claro, propositadamente não se fala da actual recessão, não se fala da
actual dificuldade financeira generalizada, não se fala de "bankruptcies", não se fala
do malogro das operações que envolvem "real estates" ou relega-se o problema a um
segundo plano. Levando em conta que os entendidos do assunto são categóricos em
afirmar que um dos ingredientes da recessão é o aspecto psicológico e, segundo dizem,
um aspecto com muito peso, então, enquanto a nossa atenção é desviada para esse
conflito, enquanto não se fala de recessão e dos seus aspectos malígnos, pode-se chegar
à conclusão que o que é mau para outros (só para os outros?) poderá ser bom para nós.
Quantas vidas foram oferecidas para que uma nova ordem económica mundial pudesse ter
lugar, e novas alianças podessem vir a ser efectivadas, ou seja, para que o petróleo,
esse bendito e maldito líquido negro, podesse ter o seu preço estabilizado
artificialmente, em gabinetes que tratam de assuntos pós-guerra!
Quantos ainda pensam que o que foi feito era inevitável? Com isso, no entanto, não
quero entrar no mérito do conflito, ou o "Presidente Saddam estaria certo ou estaria
errado", ou o "Presidente Bush poderia ou não ter evitado o conflito". Uma coisa ficou
bem patente: o poderio militar Iraquiano era um constante perigo para as demais nações
circunvizinhas, e algo precisava ser feito a respeito. Contudo não foi essa a minha
intenção ao escrever este artigo. A minha intenção foi simplesmente a de analizar
friamente as diversas facetas desta sangrenta batalha, levando em consideração o lado
histórico de prévios acontecimentos mundiais.
Poderão dizer que tenho uma visão demasiado monetarista da actual situação mundial.
Mas acreditem-me, aprendí a conhecer a história dos povos, e essa história, ainda que
não reflita todos os detalhes ou contratempos, ou subterfúgios, ou artimanhas que a
nossa fertil imaginação consegue articular, sintetiza a essência das coisas, e o
elemento básico dessa essência só não vê quem não quer ver.
By Vuca Pinheiro
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