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in "REVISTA ARQUIPÉLAGO" - Maio 96 # 24 Página 20

ELEMENTOS DA POESIA

      Quem não conhece um poema? Ou, quem já não tentou rimar algumas palavras e
    apresentá-las como poesia? Ou ainda, quantos, não encontrando a rima em determinada
    poesia, a classificam de menos importante, quando não dizem que isso não é poesia?
      O Caboverdeano é tão afeito à poesia que é difícil encontrar alguém que já não
    tenha tentado rabiscar algumas linhas e dedicá-las à amada, ou que já não tenha escrito
    algumas "quadras soltas", ou que já não tenha tentado musicar alguns versos e sentir o
    inusitado prazer de ter "feito uma morna".
      Ora, não é nossa intenção ditar regras que devem ser observadas ao se escrever
    uma boa poesia, tendo em consideração que ela é uma produção fundamentalmente
    artística e subjectiva. É sim nossa intenção mostrar alguns elementos usados na confecção
    de uma poesia e assim tentar enriquecer a criação poética daqueles que se interessam por
    essa nobre arte, ou ainda, tentar acender aquela luzinha ou despertar aquele interesse mais
    encoberto.

    A Composição Poética

      A composição poética é de natureza essencialmente solitária onde o poeta tenta
    exteriorizar os seus sentimentos mais íntimos eternizando em preto e branco os seus
    pensamentos sobre diversos sectores da vida quotidiana.
      Na poesia as palavras são cuidadosamente estudadas, escolhidas e arrumadas de
    uma certa forma, de maneira a soarem bem ao ouvido humano, de maneira a carregarem
    no seu bojo uma certa mensagem, de maneira a despertarem no leitor espectativas
    contidas e libertarem vontades veladas e desejos contidos que, por vias normais, não
    tiveram oportunidade de serem veiculadas.
      Em suma, na composição poética o leitor tenta se identificar com a linha de
    pensamento do poeta, fazendo seus esses mesmos pensamentos.
      O poeta usa palavras para criar imagens ou cenas na mente do leitor. Os adjectivos,
    advérbios, verbos e substantivos são escolhidos a dedo para tentar transmitir, com maior
    fidelidade possível, as idéias do autor ou as imágens que "pululam" na sua mente.
      Escrever poesias pode ser uma actividade totalmente natural para certas pessoas,
    enquanto que para outras a vontade poética é maior do que a potencialidade literária.
    Para estas pessoas, alguns conselhos, (se é que se pode dar conselhos para uma
    actividade tão pessoal quanto esta), não devem ser desprezados.
      Assim, em um ambiente considerado perfeito, o corpo numa posição mais relaxada e
    confortável, um ambiente mais favorável à extrapolação mental, a quietude, o isolamento,
    a paixão, o inconformismo, etc, são formas que devem ser levadas em consideração para
    se favorecer a produção poética.
      A leitura de outros autores é outra actividade que deve ser estimulada, especialmente
    quando a gente se identifica com o estilo e conteúdo literário profeciado por esse autor.
    No entanto não é recomendável pôr-se de lado poetas do passado, uma vêz que estes
    são uma referência valiosa e têm muito que oferecer.
      Entretanto, fazer poesia não é uma actividade que se pode abraçar e desenvolver
    com certa facilidade, como acontece com certos outros ramos do conhecimento humano.
    Ser poeta requer uma tendência artística, uma certa inclinação literária e certas destrezas
    e habilidades que conjuntamente facilitam a exteriorização do nosso pensamento.
      Assim, um poeta deve ter a habilidade e percepção suficientes para analizar e
    descrever as qualidades e particularidades de uma pessoa, as nuances que envolvem
    um certo lugar, conhecer e empregar metáforas, usar palavras que ajudem o leitor a
    visualizar o evento na mente, fazer comparações ou ainda descrever coisas e eventos
    de forma metafórica.

    Elementos de uma poesia

      Assim como toda a obra literária, a poesia tem os seus componentes e os seus
    quês que devem ser observados e levados em conta quando se quer abraçar este ramo
    de actividade.

    Estrofe

      Parte de um poema consistindo de uma série de linhas ou versos dispostos em uma
    certa configuração regular, formados e definidos por metrificação e rima que se repetem
    periódicamente. Uma estrofe tem, geralmente, um "pattern" regular de número de linhas,
    metrificação e rima, constituindo-se em uma secção da poesia. No entanto, uma estrofe
    irregular não é incomum.
      Na corrente modernista encontramos estrofes livres, onde a preocupação maior é
    com o conteúdo, dando-se menor importância à metrificação, à rima ou a qualquer outra
    configuração regular.

    Alliteration

      Alinhamento de palavras em "patterns" de sons, ou repetição de sons provenientes
    da consoante inicial de palavras ou de sílabas.

    Um sexto sentido semeou em mim ...

    Ritmo

      Considerado por muitos como sendo a mística da palavra, o ritmo é uma alternação
    uniforme de sílabas tónicas e não tónicas em cada verso de uma composição poética.
    O ritmo de um poema ainda tem muito a ver com a metrificação do poema e a
    correspondência sonora provocada pela rima. Todo esse conjunto de elementos
    determina o ritmo do poema.
      No verso livre a sonoridade rítmica obedece a um padrão próprio, não sendo
    governado por regras externas derivadas da alternação uniforme de sílabas tónicas ou
    de metrificação e rima.

    Rimas

      Sendo uma importante componente da poesia tradicional e ocorrendo especialmente
    no final das linhas, a rima é um pedaço de um verso ou de um poema aonde existe uma
    ocorrência regular de sons correspondentes, ou seja, quando as palavras terminam com
    a mesma sílaba, ou a mesma sonoridade silábica.

      "Ó mar eterno sem fundo, sem fim,
      Ó mar de túrbidas vagas, ó mar!
      De ti e das bocas do mundo, a mim,
      Só me vem dores e pragas, ó mar!
      ..."

      CANÇÃO AO MAR - morna - Eugénio Tavares

      No entanto não devemos esquecer que a rima praticada por um poetastro pode-se
    tornar cansativa e sem expressão, enquanto que nas mãos de um mestre pode-se constituir
    naquele toque de embelezamento tão necessário à poesia.

      Nunca é demais descrever alguns elementos ligados, de uma forma ou de outra,
    à rima:

      Consonância - Uma palavra que se aproxima da outra no seu som final, não
          necessáriamente usando as mesmas letras.

      Rima cruzada - É a rima praticada em versos alternados, isto é, o primeiro verso
          rima com o terceiro e o segundo rima com o quarto (abab).

          "...
          Uma luz penetrou
          Na flecha da esperança,
          Uma vida se elevou
          Na força da minha crença.
          ..."

          ELA - Cajuca Pereira
          in "Extractos da Poesia Caboverdeana"

      Rima completa - Na rima completa há uma correspondência exacta entre sons
          idênticos nos versos de um poema.

      Rima parcial - Composta de sílabas relacionadas mas não totalmente idénticas,
          provocando um efeito dissonante no ritmo do poema.

      Rima real - Um "pattern" de rimas que se estende por uma estrofe de sete linhas.

      "Poetastro" - Versificador de menor qualidade, com alguma similaridade poética,
          ou um feitor de versos e rimas triviais e vulgares.

    Imagens sensoriais

      Têm por finalidade enaltecer o visual, o som e o "feel" da poesia. Os poetas
    procuram descrever imagens vivas através de imagens sensoriais, ou seja, procuram prover
    a descrição dessas imagens com elementos característicos provenientes dos sentidos da
    visão, audição, tacto, gosto e cheiro. Nessa descrição há uma preocupação em se activar
    os cinco sentidos do leitor.

    A metáfora

      O linguajar humano é essencialmente metafórico. Não existe um número finito de
    metáforas, uma vêz que as usamos diáriamente e constantemente estamos criando novas
    metáforas.
      Na metáfora procura-se descrever uma pessoa, um lugar ou uma coisa, comparando,
    ou enunciando as qualidades e particularidades dessa pessoa, lugar ou coisa de uma forma
    não directamente voltada ao específico mas sim ao geral e comparativo.
      Uma boa metáfora deve ter a habilidade de permitir ao leitor recriar, com uma certa
    facilidade, a matéria descrita na sua mente, com elementos familiares a esse leitor.
      Outrossim, a metáfora deve providenciar elementos que tenham a particularidade de
    chamar a atenção das pessoas, e ao mesmo tempo, possam fornecer uma visão nova no
    que diz respeito ao entendimento e compreensão da matéria em questão.
      As metáforas precisam no entanto ser espontâneas. Não se deve cair no erro de
    adicionar metáforas às poesias sómente com o intuito de mostrar que a gente sabe usar
    metáforas. Fazendo isso também se cai no erro de tirar toda a espontaneidade da
    linguagem simples, pura e directa, em troca pela sofisticação.

      " .....
      Na encruzilhada dos mares
      Nossas vidas na balança

      Num baloiçar constante
      Sem saber aonde cair,
      Germinar e florir!
      ....."

      EMIGRAÇÃO - Vuca Pinheiro
      in "Extractos da Poesia Caboverdeana"

    "A primavera da vida", "A luz da inteligência" e "O gemer da aragem" são
    exemplos de metáforas muito usadas na composição poética.

    A simile

      Por vezes considerada como uma variação da metáfora, a "simile" é uma comparação
    entre duas coisas totalmente diferentes, onde as palavras "como" (sentido comparativo)
    ou "qual" ou "mais que" ou "menos que" são usadas para estabelecer a ligação entre
    dois elementos de uma comparação.

      "...
      Hoje, como quem semeia em deserto,
      vivo de perguntar
      de qual mais vivo:
      se da memória das rosas que plantamos,
      se da sede das que não chegamos de semear..."

      TÃO FRESCA AINDA - Teobaldo Virgínio
      in "Do Mar ao Chão dos Teus Pés"

      As "similes" são usadas especialmente com a intenção de clarificar idéias. Assim,
    "Maria come como um passarinho", ou "Ele está mais perdido que cego em tirotéio",
    nos dá a noção exata da quantidade de comida que a Maria come e também do sentido
    de desnorteamento e desorientação do sujeito descrito na segunda frase.

    A parábola

      Considerada como uma versão estendida da "simile" e da "metáfora", a parábola,
    muito usada em textos antigos como a Bíblia, serviu muitas vezes como instrumento
    lectivo e de aprendizagem para um público menos literato mas muito receptivo em termos
    de idéias e conceitos.
      Na parábola o objecto da comparação, ou seja, o algo que é comparado à idéia
    original é desenvolvido e elaborado com a esperança de que o público ouvinte possa
    entender a idéia e possa aplicar o aprendido à idéia original.

    A fraseologia

      A forma como a idéia é apresentada também pesa no contexto geral da poesia.
    Portanto, "Assim como um cego em tiroteio, ele encontra-se perdido" não é tão eficáz
    quanto "Ele está mais perdido que cego em tirotéio". "A chuva abundante molhou a nua
    calçada"
    é mais eficáz que "A chuva, que era abundante, acabou por molhar toda a
    calçada"
    , assim como "A luz amena e empaledecida da lua distante" soa melhor que
    "O brilho da lua no horizonte era brando e sem foco".

      Ao se descrever a aparência, o emprego do adjectivo é de suma importância.

    O homem olhou para o seu relógio.
    O velho homem olhou para o seu relógio de ouro.
    O excêntrico sexagenário consultou o seu dourado e empoeirado "Cartier".

      Como se pode deduzir, o emprego de objectivos ajuda o leitor a clarificar a sua idéia
    quanto ao objecto da descrição, emprestando-lhe precisão descritiva, situando-o no tempo,
    ou ainda qualificando-o quanto à sua construção ou procedência.

    Personificação

      A personificação é uma descrição de animais, objectos ou idéias como se fossem
    pessoas humanas. Deste modo, aos animais, objectos ou idéias se emprestam qualidades
    humanas.

      "Tu que ouves os meus lamentos
        sem dizer nada,
      Tu que sentes as minhas carícias
        sem reclamar,
      Tu que compartilhas da minha dor
        em silêncio,
      Tu que me embalas
        em meus sonhos dolentes,
      Tu, violão amigo,
        companheiro de todas as horas,
      ............"

      COMPANHEIRO DE TODAS AS HORAS - Vuca Pinheiro
      in "Extractos da Poesia Caboverdeana"

    Estilo

      Até final da década de 60, reconhecia-se, nos meios literários, 3 formas
    representativas do estilo literário chamado poesia: formal, informal e coloquial.

    Formal

      Esta forma poética é caracterizada por frases longas e complicadas, salpicadas por
    sofisticados vocabulários, onde as contrações, abreviações ou quaisquer outras formas
    menos "dignas" ou menos conservadoras de representar a linguagem eram totalmente
    repudiadas. A regra gramatical era respeitada e cultivada, para não dizer venerada.

    Informal

      De natureza menos rígida que a poesia formal, onde a inclusão de certas
    "imperfeições" linguísticas são aceitas.

    Coloquial

      Caracterizada por frases simples, onde o vocabulário e a construção das frases
    seguem uma estrutura menos rígida, aceitando vocábulos de natureza menos sofisticadas
    e até calões ou gírias.

    Formato

      É a maneira ou forma como a poesia se apresenta na página, ou o visual e aspecto
    gráficos da poesia. Muitas vezes o formato da poesia já nos transmite uma certa idéia
    concebida pelo autor sobre o conteúdo da obra.

    O verso livre

      Tendo nascido como uma reação ao tradicional, o verso livre tem leis próprias onde
    não existe um ritmo pre-determinado ou pre-definido, onde a metrificação obedece a um
    padrão mais livre, assim como o "pattern" de som utilizado na poesia.
      O verso livre foi introduzido no século dezanove por poetas que se sentiram
    consternados e prisioneiros das regras existentes na poesia tradicional, não podendo
    expressar livremente as suas idéias. Assim, o verso livre adquiriu um ritmo próprio e uma
    correspondência sonora toda especial, procurando básicamente refletir a sensibilidade
    do poeta e permitindo uma série de efeitos especiais não anteriormente experimentados
    pela poesia tradicional.
      Actualmente o verso livre é largamente usado por poetas de orígem e influência
    tradicionais, assim como uma larga gama de poetas considerados modernos.
      Uma das vantagens do verso livre é a utilização de uma variedade grande de efeitos,
    ritmos e "petterns" de sons. Ao se escrever um verso livre, o poeta se preocupa
    básicamente com o conteúdo, a organização das palavras e que sons utilizar.

    O soneto

      Estilo poético cultivado especialmente na literatura mais antiga, o soneto (que ainda
    hoje é utilizado) é caracterizado por um conjunto de quatro estrofes perfeitamente
    metrificadas, sendo as duas primeiras formadas por quatro versos e as duas últimas por
    três versos.
      A metrificação é caracterizada por dez sílabas em cada verso e a rima (nas
    primeiras duas estrofes) é feita entre a primeira e a quarta linha da estrofe, e a segunda
    e a terceira linha da mesma estrofe (abba). As duas últimas estrofes mostram a rima estre
    a primeira e a segunda linha de cada estrofe e entre as terceiras linhas das duas últimas
    estrofes (aab aab).

    Soneto Inglês ou Shakespeariano

      Versando básicamente sobre o intelecto, o soneto Inglês consiste de três quadras
    com rima do tipo "abba abba abba", seguida por dois últimos versos que também rimam
    entre si (aa). Nas três primeiras quadras apresenta-se um longo depoimento, enquanto
    que nos dois últimos versos uma breve conclusão é apresentada.

    Soneto Italiano

      Carregado de emoções e celebrando o amor, o soneto Italiano também é formado
    por quatorze linhas divididas em duas quadras e dois tercetos. Nas duas primeiras quadras
    um problema é apresentado enquanto que nos dois últimos tercetos a solução é dada.
      A rima, para a primeira parte do soneto, é do tipo "abba abba", ou seja, verso 1 rima
    com verso 4, verso 2 com verso 3, 5 com 8 e 6 com 7. Na parte final aparecem mais
    duas ou três rimas empregadas de uma forma mais livre.

    Soneto lusófono

      O soneto subscrito por escritores da língua lusa segue os mesmos preceitos do
    soneto Italiano, no formato e no conteúdo.

By Vuca Pinheiro
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