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in "VOZ DI POVO" - May 93 nº ---
in "MUNDO CABOVERDEANO" - Ano 1 nº 11 Mar/5/93
Lembrando SILVESTRE FARIA
Era já de madrugada! Os pêndulos anunciavam o retardado recolher nas calmas
noites de Valrico! Súbitamente, como que num acesso de lucidez e valentia, o corpo já
debilitado pela doença do século, sentiu-se revigorado, e assim sentiu que podia reunir
forças para relembrar o passado, e ditou...
Dirás à minha pobre mãe, coitada,
Que me perdoe não ir, na despedida,
Beijar-lhe a grave fronte tão querida,
Beber-lhe o santo olhar, benção sagrada.
Porque me traz esta alma tão quebrada
A dor inconsolável da partida,
Que triste como os que se vão da vida
Nem quero ver-lhe a fronte magoada.
Dirás que levo uma saudade funda
Dentro do coração angustiado
Que a dor é tanta, em suma, e tão profunda
Que me parece até ter começado
A morrer neste lúgubre momento
Em que o navio desfralda asas ao vento...
Por este lindo soneto o poeta se despedia da mãe que não pudera ver antes da sua
partida fugidia do porto da Fajã d'Água.
Tal a clarividência do momento, tal a semelhança da despedida que, quem assistia
não sabia se se tratava da despedida de Eugénio Tavares ao deixar a sua amada mãezinha
(Badinha) após uma fuga "Rocambolesca" para os Estados Unidos da América, ou se se
tratava de um outro poeta que, ao ver as forças se lhe surrupiando a pouco e pouco, não
quiz deixar de contribuir para o esclarecimento de certa parte nebulosa da vida do nosso
poeta maior, Eugénio Tavares, e, ao mesmo tempo, fazer dele as palavras de Nhô Tatai
e assim se despedir desta vida que viveu plenamente mas não completamente.
O soneto acima, de Eugénio Tavares, deixou uma marca tão profunda em Silvestre
Faria que este não permitiu que esse lindo soneto ficasse esquecido no baú dos ainda
muitos trabalhos inéditos de Eugénio.
Ao acontecerem coisas como estas, não consigo deixar de pensar numa possível
remodelação do Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, ou de qualquer outro orgão
congénere em Cabo Verde, de maneira a incluir ou adicionar no seu bojo um caracter
histórico, um caracter de recolha de dados históricos relevantes que possam contribuir
para o esclarecimento do nosso passado. Um povo só pode progredir se souber de onde
veio, aonde se encontra no momento e para onde vai.
Mas, este episódio não é solitário. Há alguns anos atrás, após uma visita do não
menos querido poeta Rodrigo Peres aos Estados Unidos da América, o mesmo Silvestre
Faria, com a sua memória fotográfica sempre afiada, "relembrava" o amigo Rodrigo de
poemas que este escrevera nos tempos da mocidade e que não mais se recordava.
Este facto não é isolado. Algo semelhante aconteceu comigo quando me encontrei
casualmente com Jorge Monteiro, o nosso conhecido Jotamont, em Belo Horizonte, Brasil,
e também lhe "recordava" de uma coladeira que o mesmo havia composto e já não mais
se lembrava.
Mas afinal quem é Silvestre Faria, homem de quem muitos falam, muitas vezes sem o
completo conhecimento de suas múltiplas facetas? Silvestre Pinheiro de Faria, nome de
baptismo, nasceu a 31 de Dezembro de 1924 na Furna, Ilha Brava, viveu a sua meninice
na Ilha Jardim e com 8 anos de idade foi para São Vicente para proseguir os seus estudos.
Amparado pelos pais, que também se imcumbiam da educação de Maria do Espírito Santo
Faria, conhecida professora de Francês no Licéu Gil Eanes, a irmã mais velha, Vicente
Pinheiro de Faria, que hoje trabalha para o Portuguese Credit Union de Cambridge,
Massachusetts, e Amiro Pinheiro de Faria, engenheiro electrotécnico trabalhando para a
FAU em Moçambique.
Deixa a mulher Maria da Luz Martins de Faria, à qual grande parte dos poemas era
dedicada, os filhos Luiza, Maria Adalgisa, Luis António, João Vicente, Luis José, Silvestre
e Manuel António. E, para completar esta família de 7 filhos, não poderiam faltar 17 netos
a este Caboverdeano que casou em 1950 por procuração, após 6 anos de namoro.
Começou a trabalhar como quarto escriturário no Banco Nacional Ultramarino com
21 anos de idade, tendo sido transferido para a Guiné em Junho de 1953. Após quatro
anos retornou a Cabo Verde, sempre no Banco, aonde despendeu 33 anos da sua vida,
muitos dos quais na gerência desta instituição financeira.
Por alturas da Independência de Cabo Verde, vítima das circunstâncias, seguiu em
1975 para Lisboa aonde viveu até 25 de Novembro de 1978, altura em que emigrou para
os Estados Unidos da América, após ter conseguido a sua reforma.
Por estas bandas, fixou residência em Brockton, tendo trabalhado para a firma de
electrónica "Datel Systems" de 1978 a 1988, quando, também após a reforma aos 62
anos de idade, preferiu o sossego de Valrico, Florida, que serviria então de sua última
morada a 27 de Fevereiro de 1993.
Os primeiros versos, recentemente encontrados pela família, datam de quando
tinha 17 anos de idade e se referem a um período em que tinha apenas 8 anos de idade.
Uma namorada, uma amiga, uma zanga, um retorno, um facto, tudo era motivo para as
centenas de poemas que escreveu e que um dia, após a recolha que está sendo feita,
tentarei publicar na íntegra.
As composições mais conhecidas são "Luz Brando de bo Olhar", (gravado no meu
primeiro trabalho discográfico), "Marlene Lebâ'n co Bó", "Despedida", (que constou do
primeiro LP de Sãozinha Fonseca), e "Valsa Matilde" (do meu segundo disco) que, em
toada dolente, conta a saga dos bravenses e, por consequência de todos os
Caboverdeanos, em busca de uma vida melhor na Emigração. Ainda não podemos
esquecer de "Brada Maria", compilação de Eugénio Tavares, que me deu a oportunidade
de perpectuar a voz de Silvestre Faria na declamação daquela que é considerada a
primeira morna de Cabo Verde.
Mente de natureza poética, mas também de base matemática, dotado de uma
teimosia persistente, sempre quiz ser engenheiro electrónico, e como as condições na
altura não o permitiam, resolveu, por conta própria, tirar diversos cursos por
correspondência, o que lhe permitiu adquirir conhecimentos invejáveis de electrónica,
com projectos vários, divididos entre rádio e televisão. Não podemos esquecer que nos
princípios de 1970, contra todas as teorias existentes na época, desenvolveu um certo
tipo de antena que permitiu a recepção da emissão televisiva das Ilhas Canárias para
espanto dos habitantes da pacata Ilha Brava.
O "hobby", como se podia advinhar, era a electrónica. À teimosia persistente
contrabalançava uma vontade soberana que podia deixar parado um projecto por mais
de seis meses faltando apenas um parafuso. Assim, deixou a meio um projecto electrónico
de televisão em três dimensöes, projecto esse que perseguiu desde os tempos de rapaz
e também do meu falecido pai, com quem discutia e aprendia sobre problemas de
natureza óptica, base científica do projecto. É claro que aqui não podemos deixar de
lamentar a falta de apoio material e logístico com que se debatem os nossos inventores
caboverdeanos.
Homem de muitos talentos, tinha explicações científicas para tudo e para todos.
Mas, contar estórias do tempo de Eugénio, Rodrigo, José Medina, Nhô Djuninho, Juloca,
Eduino, Wilson, Nhô Taninho e tantos outros constituia o seu passatempo favorito. A sua
incrível memória, infelizmente, hoje já não nos pode ilucidar sobre factos diversos da
nossa cultura.
Assim foi esse Caboverdeano que, entre muitas outras coisas, escreveu esta linda
valsa contando as vicissitudes por que passaram os nossos antepassados na saga
emigratória da nossa terra.
Partem os filhos da Brava
Dignos irmãos dos de outrora
Causa que então os levava
É a mesma que os leva agora
Nada evita a partida
De quem quer vencer na vida.
Velas ao vento
Navio ao largo
Que triste e amargo
Momento.
Partem p'ra longe
Partem chorando
Partem com fé
Ai até quando.
Choram saudades da terra
Que os seus amores encena.
Mães, esposas, bem amadas,
Não chorai vossos amores
Não temei nem as lufadas
Nem das ondas os furores.
Quem tem mais força a vontade
Que a alma da tempestade
O céu nublado todo encoberto
Está por certo magoado.
Partem p'ra longe
Partem chorando
Partem saudosos
Saudades deixando.
E assim vão sulcando o mar
Pensando sempre em voltar.
By Vuca Pinheiro
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