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in "REVISTA FAROL" - Vol 2 # 12 Out/91 Página 10
in "PORTUGUESE TIMES - Suplemento ERNESTINA" - Ano I nº 18 Set/26/91

O ASSOCIATIVISMO NA DEFESA DA IDENTIDADE CULTURAL

O associativismo é uma forma de afiliação que surgiu em função da necessidade que as pessoas têem de se unirem, de se precaverem contra o inimigo comum e de se defenderem de possíveis agressões externas, sejam elas de orígem racial, cultural, religiosa, ou social.

Se, por um lado, a língua é um dos factores que promove a união entre os povos, por outro lado, essa mesma língua e mais a provável perda de identidade cultural poderão ser factores cruciantes no aparecimento e proliferação de associações.

Juntando isso à diversidade de cultura, de orígem e de talentos que sempre caracterizou o povo caboverdeano, justifica-se plenamente o aparecimento e proliferação de associações dentro de Comunidades Caboverdeanas espalhadas pelo mundo, cada um representando o seu interesse particular.

Essa proliferação, no entanto, é mais evidente onde a diversidade cultural, entre o país anfitrião e os novos imigrados, se torna mais visível e palpável.

Tomemos, para termo de comparação, o Brasil e os Estados Unidos da América do Norte. Em qual desses países o perigo de perda de identidade é mais iminente? Vejamos...

No Brasil, existem apenas duas associações caboverdeanas, uma servindo o Estado do Rio de Janeiro e outra servindo o Estado de São Paulo, mais precisamente a área de Santo André, cidade periférica da chamada Grande São Paulo.

No Brasil, a diferença cultural não é palpável. Muito pelo contrário, as afinidades culturais são de longe mais notórias do que as disparidades. Em outras palavras, as duas culturas, a caboverdeana e a brasileira, se completam em muitos aspectos.

Existe no Brasil como que um prolongamento da nossa cultura, um prolongamento do que deixamos, com muitas saudades, em Cabo Verde: o mesmo tipo humano onde prevalece o mestiço, a mesma situação de martirizado e subjugado políticamente por longos e longos anos, a mesma comida caboverdeana, que é encontrada no Brasil com nomes um pouco diferentes, a seca do Nordeste Brasileiro que em tudo faz lembrar Cabo Verde, a mesma "morabeza", o mesmo carinho, a mesma afeição, enfim tudo faz crer que se está a viver em Cabo Verde, um Cabo Verde colorido e regado com muita música, mulher bonita e futebol (na verdade, as paixões do caboverdeano).

A barreira linguística é praticamente inexistente, uma vêz que o próprio parafrasear cantante do brasileiro é um convite à poesia e o amor ao próximo. A música brasileira, cantarolada desde criança por caboverdeanos afeitos à canção e ao samba brasileiros, é um regalo para o imigrante caboverdeano, que vai encontrar nos ritmos nordestinos semelhanças incríveis com os ritmos caboverdeanos mais tradicionais.

Já nos Estados Unidos, apesar do poder aquisitivo ser de longe superior ao do Brasil, apesar dos horizontes tangíveis serem quase que ilimitados, apesar da segurança social, do sonho da casa própria e de tantas outras vantagens materiais, uma barreira e apenas uma (ou talvez a mais importante) faz com que tudo isso seja relegado a um segundo plano. E essa barreira é a barreira linguística.

É claro que não podemos deixar de lado o aspecto cultural americano, que em nada se aproxima da cultura caboverdeana. O foco aqui é no aspecto linguístico porque a língua é o veículo de comunicação atravez do qual se consegue desfrutar de todas as vantagens que esta terra oferece.

Aqui na terra do Tio Sam, em termos associativistas, a Comunidade Caboverdeana vive numa verdadeira Torre de Babel, com associações de tudo quanto é tipo (algumas por sinal completamente bairristas), orgãos de comunicação social de várias tendências, conjuntos musicais de todos os estilos e gostos, etc, etc.

Se analizarmos tudo isso, chegaremos à inevitável conclusão de que as pessoas sentem uma necessidade absoluta de amparo de outras que comungam os mesmos pensamentos. Essa necessidade chega a tal ponto de encontramos numa mesma cidade associaçães extremamente bairristas que não admitem a hipótese de se juntarem para serem mais fortes, talvez com medo de perderem a identidade (aqui representada pelo bairrismo).

Os Caboverdianos-Americanos formam um outro capítulo todo à parte neste grande contexto associativista.

Diversos outros exemplos poderiam ser aqui citados, mas, todos eles versariam sobre um mesmo ponto: o medo de se perderem dentro da cultura americana, o medo de não mais se encontrarem, o medo de perderem o ponto de referência, algo extremamente valioso e importante para o caboverdeano imigrado.

O que fazer para combater tal situação? Idéias não faltam, o que falta é coragem e visão política.

Políticamente podemos pertencer ao MpD, ao PAICV, à UCID ou a qualquer outro partido, mas devemos e precisamos juntar as nossas forças ao grande partido de "Caboverdeanos na América", para assim defendermos os nossos interesses e fazermos desta terra, não um manancial onde os benefícios são aproveitados por poucos, mas sim uma terra de oportunidades que, usadas a nosso favor, poderão elevar o nosso padrão de vida, sem contudo nos sujeitarmos à tão proclamada perda de identidade cultural.


By Vuca Pinheiro
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